Vozes Verbais: ativa, passiva, reflexiva e como identificar
As vozes verbais indicam a relação gramatical e de sentido estabelecida entre o verbo e o sujeito da oração, explicitando se o sujeito pratica a ação expressa, se sofre seus efeitos ou se atua simultaneamente como agente e paciente do processo.
Compreender essa dinâmica sintática permite reconhecer diferentes estratégias de construção frasal, interpretar textos com precisão e aplicar regras fundamentais de concordância verbal na norma-padrão. Conforme a posição assumida pelo sujeito, a oração classifica-se em voz ativa, voz passiva (analítica ou sintética) e voz reflexiva (incluindo a forma recíproca).
Neste conteúdo, você aprenderá os conceitos de cada voz verbal, as estruturas da voz passiva analítica e sintética, o método prático de conversão da voz ativa para a passiva, a distinção entre partícula apassivadora e índice de indeterminação do sujeito, além de resolver questões com gabarito comentado.
O que são vozes verbais?
A voz verbal é a flexão que revela o comportamento do sujeito gramatical diante da ação manifestada pelo verbo. A tradição gramatical da Língua Portuguesa categoriza três vozes principais:
- Voz ativa: o sujeito gramatical é o agente da ação verbal;
- Voz passiva: o sujeito gramatical é o paciente, recebendo a ação executada por outro termo;
- Voz reflexiva: o sujeito gramatical pratica e recebe a ação ao mesmo tempo.
A classificação da voz verbal depende diretamente do papel semântico do sujeito: exercer a ação (agente), sofrê-la (paciente) ou desempenhar ambos os papéis (reflexivo).
Voz Ativa
Na voz ativa, o sujeito gramatical realiza a ação verbal, configurando o chamado sujeito agente. Essa construção estabelece uma linha direta e dinâmica na oração, evidenciando quem toma a iniciativa da ação.
O professor explicou o regulamento aos estudantes.
- O professor: sujeito agente (pratica a ação);
- explicou: verbo transitivo direto e indireto na voz ativa;
- o regulamento: objeto direto (termo que recebe a ação);
- aos estudantes: objeto indireto (destinatário da ação).
Outros exemplos de orações na voz ativa:
- O escritor finalizou o capítulo do livro.
- A diretoria aprovou as novas medidas institucionais.
- A tempestade derrubou árvores na avenida principal.
Voz Passiva
Na voz passiva, o sujeito gramatical não pratica a ação, mas a recebe, configurando o sujeito paciente. Esse recurso é muito utilizado em textos acadêmicos e jornalísticos para dar destaque ao acontecimento ou ao resultado, deixando o executor da ação em segundo plano ou omitido.
O regulamento foi explicado pelo professor aos estudantes.
- O regulamento: sujeito paciente (recebe a ação de ser explicado);
- foi explicado: locução verbal passiva (verbo auxiliar ser + particípio de explicar);
- pelo professor: agente da passiva (termo preposicionado que pratica a ação).
A voz passiva pode ser construída de duas formas: analítica ou sintética.
Voz Passiva Analítica
A voz passiva analítica é formada por uma locução verbal composta por um verbo auxiliar (geralmente o verbo ser) flexionado no tempo e modo da oração, seguido do particípio do verbo principal. O particípio deve concordar em gênero e número com o sujeito paciente.
Sujeito paciente + Verbo auxiliar (ser) + Particípio + Agente da passiva (opcional)
Os documentos foram assinados pela coordenadora.
A carta foi enviada pelo correio. / As cartas foram enviadas pelo correio.
- A carta: sujeito paciente singular feminino → foi enviada;
- As cartas: sujeito paciente plural feminino → foram enviadas;
- O particípio ajusta-se rigorosamente à flexão do sujeito paciente.
O Agente da Passiva
O agente da passiva é o termo sintático que executa a ação sofrida pelo sujeito paciente na voz passiva analítica. É introduzido pela preposição por (ou suas contrações pelo, pela, pelos, pelas) e, em contextos literários mais raros, pela preposição de.
Atenção: a presença do agente da passiva não é obrigatória. Ele pode ser omitido quando for desconhecido, irrelevante ou quando o autor preferir não explicitar o responsável pela ação (ex.: “O projeto foi aprovado ontem”).
Voz Passiva Sintética (ou Pronominal)
A voz passiva sintética é construída com um verbo transitivo direto (ou bitransitivo) na 3ª pessoa do singular ou do plural, acompanhado do pronome apassivador se.
Verbo na 3ª pessoa (VTD) + Pronome “se” (apassivador) + Sujeito paciente
Divulgou-se o resultado. / Divulgaram-se os resultados.
Nessa estrutura, o termo que vem após o verbo não é objeto direto, mas o sujeito paciente da oração. Em razão disso, o verbo concorda compulsoriamente em número com esse substantivo.
Organizaram-se os arquivos da instituição.
- Organizaram: verbo transitivo direto na 3ª pessoa do plural;
- -se: partícula (ou pronome) apassivadora;
- os arquivos da instituição: sujeito paciente no plural.
Dica de prova: para confirmar se uma oração está na voz passiva sintética, tente convertê-la para a voz passiva analítica. Se a frase fizer sentido e mantiver a correção gramatical, o “se” é pronome apassivador: “Vendem-se livros” = “Livros são vendidos”.
Voz Reflexiva
A voz reflexiva ocorre quando o sujeito gramatical pratica e recebe a ação ao mesmo tempo. O sujeito é simultaneamente agente e paciente do processo.
Para indicar essa reflexividade, o verbo é conjugado com um pronome oblíquo reflexivo (me, te, se, nos, vos), que desempenha função sintática de objeto direto ou indireto.
A estudante preparou-se cuidadosamente para a apresentação.
- A estudante: sujeito agente e paciente;
- preparou: verbo na voz reflexiva;
- -se: pronome reflexivo (equivale a “preparou a si mesma”, exercendo função de objeto direto).
Voz Reflexiva Recíproca
Quando dois ou mais sujeitos realizam uma ação mútua, praticando-a e sofrendo-a reciprocamente (um em relação ao outro), ocorre a voz reflexiva recíproca.
Os pesquisadores cumprimentaram-se após a conferência.
O pronome “se” exprime reciprocidade: cada pesquisador cumprimentou o outro mutuamente.
Quadro Comparativo das Vozes Verbais
| Voz Verbal | Papel do Sujeito | Estrutura Típica | Exemplo Canônico |
|---|---|---|---|
| Ativa | Agente (pratica a ação) | Sujeito + Verbo + Objeto | O autor escreveu o artigo. |
| Passiva Analítica | Paciente (recebe a ação) | Sujeito + Auxiliar (ser) + Particípio + Agente | O artigo foi escrito pelo autor. |
| Passiva Sintética | Paciente (recebe a ação) | Verbo (3ª pessoa) + SE + Sujeito paciente | Escreveu-se o artigo. |
| Reflexiva | Agente e paciente | Sujeito + Verbo + Pronome reflexivo | O jovem machucou-se com o galho. |
| Reflexiva Recíproca | Agentes e pacientes mútuos | Sujeito no plural + Verbo + Pronome reflexivo | Os debatedores olharam-se com firmeza. |
Voz Ativa
O cientista analisou as amostras em laboratório.
O foco recai sobre o cientista (sujeito agente).
Voz Passiva
As amostras foram analisadas em laboratório pelo cientista.
O foco recai sobre as amostras (sujeito paciente).
Conversão da Voz Ativa para a Voz Passiva
A transposição de uma oração ativa para a voz passiva analítica requer que o verbo original seja transitivo direto (VTD) ou transitivo direto e indireto (VTDI), pois é o objeto direto que assume a função de sujeito paciente.
Ativa: [Sujeito Agente] + [Verbo Transitivo Direto] + [Objeto Direto]
Passiva: [Sujeito Paciente] + [Verbo Auxiliar + Particípio] + [Agente da Passiva]
Etapas para a conversão:
- O objeto direto da oração ativa torna-se o sujeito paciente da passiva;
- O verbo principal é colocado no particípio;
- O verbo auxiliar (ser) é inserido no mesmo tempo e modo em que estava o verbo na voz ativa;
- O sujeito agente passa a ser o agente da passiva, precedido de preposição (por, pelo, pela).
Tabela de Correspondência dos Tempos Verbais
| Tempo Verbal Ativo | Voz Ativa | Locução na Voz Passiva | Exemplo Passivo |
|---|---|---|---|
| Presente do Indicativo | escreve | é escrito(a) | O texto é escrito pelo aluno. |
| Pretérito Perfeito | escreveu | foi escrito(a) | O texto foi escrito pelo aluno. |
| Pretérito Imperfeito | escrevia | era escrito(a) | O texto era escrito pelo aluno. |
| Pretérito Mais-que-perfeito | escrevera | fora escrito(a) | O texto fora escrito pelo aluno. |
| Futuro do Presente | escreverá | será escrito(a) | O texto será escrito pelo aluno. |
| Futuro do Pretérito | escreveria | seria escrito(a) | O texto seria escrito pelo aluno. |
Verbos que não admitem voz passiva
Como a voz passiva exige que um complemento direto passe a atuar como sujeito, as orações que não possuem objeto direto não podem ser passivadas. Não admitem voz passiva:
- Verbos intransitivos: não exigem complemento (ex.: “O pássaro voou”);
- Verbos de ligação: apenas ligam o sujeito a uma qualidade ou estado (ex.: “O candidato estava calmo”);
- Verbos transitivos indiretos: exigem complemento com preposição, o qual não se converte em sujeito na norma-padrão (ex.: “Todos confiam no projeto”).
Partícula Apassivadora vs. Índice de Indeterminação do Sujeito
Uma das distinções sintáticas mais exigidas em exames é a função da palavra se associada a formas verbais na 3ª pessoa:
| Critério | Partícula Apassivadora (PA) | Índice de Indeterminação do Sujeito (IIS) |
|---|---|---|
| Transitividade verbal | Verbo Transitivo Direto (VTD) ou VTDI | Verbo Transitivo Indireto (VTI), Intransitivo ou Ligação |
| Presença de preposição | Sem preposição no termo seguinte | Com preposição regida pelo verbo |
| Sujeito da oração | Sujeito paciente (determinado) | Sujeito indeterminado |
| Concordância verbal | O verbo concorda no singular ou plural | O verbo fica obrigatoriamente no singular |
| Exemplo | Alugam-se salas. (= Salas são alugadas) | Precisa-se de operários. (e nunca “precisam-se”) |
Regra de ouro: identificou verbo com preposição acompanhado de “se” (necessita-se de, acredita-se em, trata-se de)? O sujeito é indeterminado e o verbo permanece no singular. Sem preposição regendo o substantivo em verbo transitivo direto? Trata-se de voz passiva sintética, e o verbo concorda com o sujeito no plural (consertam-se relógios).
Como identificar as vozes verbais em uma questão?
- Localize a oração e o verbo: observe se a estrutura apresenta verbo simples ou locução com particípio.
- Identifique o sujeito: pergunte "quem?" ou "o que?" antes do verbo.
- Avalie a ação: determine se o sujeito executa o ato (ativa), sofre seus efeitos (passiva) ou realiza e recebe o processo (reflexiva).
- Examine o pronome “se”: caso esteja presente, verifique a transitividade do verbo e se há preposição para distinguir apassivação de indeterminação do sujeito.
- Teste a conversão analítica: na dúvida sobre a voz passiva sintética, tente inverter para a forma ser + particípio.
Quiz — Vozes Verbais
Questão 1 — Em “A comissão julgadora avaliou todos os projetos inscritos”, a oração classifica-se na:
Questão 2 — A oração “O artigo científico foi revisado pelos avaliadores” está na:
Questão 3 — Assinale a frase que exemplifica a voz passiva sintética (ou pronominal):
Questão 4 — Em “Os dois debatedores abraçaram-se ao término do evento”, o pronome “se” estabelece ideia de:
Questão 5 — Transpondo “O diretor assinará os contratos amanhã” para a voz passiva analítica, tem-se:
Questão 6 — Qual das orações abaixo NÃO admite transposição para a voz passiva?
Questão 7 — Em “Identificou-se uma grave falha de segurança”, o termo “uma grave falha de segurança” é:
Questão 8 — De acordo com a norma-padrão de concordância, assinale a opção correta:
Questão 9 — Na frase “A floresta foi consumida pelo fogo”, o termo “pelo fogo” atua sintaticamente como:
Questão 10 — Em “A criança olhou-se no espelho da sala”, a voz verbal é:
Resumo sobre vozes verbais
- As vozes verbais expressam o papel assumido pelo sujeito em relação ao processo verbal.
- Na voz ativa, o sujeito é agente e pratica a ação.
- Na voz passiva, o sujeito é paciente e recebe a ação praticada por outro elemento.
- A passiva analítica estrutura-se com: verbo auxiliar (ser) + particípio + agente da passiva.
- A passiva sintética estrutura-se com: verbo transitivo direto na 3ª pessoa + pronome apassivador “se” + sujeito paciente.
- Na passiva sintética, o verbo concorda obrigatoriamente com o sujeito paciente (ex.: Vendem-se casas).
- Com verbos transitivos indiretos preposicionados, o “se” atua como índice de indeterminação do sujeito e o verbo permanece no singular (ex.: Precisa-se de técnicos).
- Apenas verbos transitivos diretos (VTD) e bitransitivos (VTDI) admitem transposição para a voz passiva.
- Na voz reflexiva, o sujeito pratica e recebe a ação ao mesmo tempo.
- A voz reflexiva recíproca indica ação mútua e compartilhada entre dois ou mais indivíduos no plural.
Conclusão
O estudo das vozes verbais é basilar para o domínio da análise sintática e para o desenvolvimento de uma expressão escrita madura e precisa. A alternância consciente entre a voz ativa e a passiva possibilita direcionar o foco textual, permitindo destacar o autor da ação ou enfatizar o acontecimento e suas consequências.
Além disso, a distinção correta entre o pronome apassivador e o índice de indeterminação do sujeito soluciona as dúvidas mais frequentes de concordância verbal da norma culta, recorrentes em vestibulares, no ENEM e em concursos públicos.
Perguntas frequentes sobre vozes verbais
O que é voz verbal?
É a forma que o verbo assume na oração para indicar se o sujeito gramatical pratica a ação (ativa), sofre a ação (passiva) ou realiza e recebe a ação ao mesmo tempo (reflexiva).
Como diferenciar voz passiva analítica de voz passiva sintética?
A voz passiva analítica é constituída por locução verbal (verbo auxiliar + particípio, como em “O prédio foi construído”), enquanto a passiva sintética utiliza o verbo na 3ª pessoa acompanhado do pronome se apassivador (como em “Construiu-se o prédio”).
O que é o agente da passiva?
É o termo da oração na voz passiva analítica que realiza a ação sofrida pelo sujeito paciente. Geralmente é regido pela preposição por (ou contrações pelo/pela) e raramente pela preposição de.
Por que não existe voz passiva com verbos de ligação?
Porque verbos de ligação não exprimem ação e não possuem complemento direto (objeto direto) que possa assumir o papel de sujeito paciente na oração passivada.
Qual a diferença entre "Vende-se carro" e "Vendem-se carros"?
Ambas as frases estão na voz passiva sintética. O verbo concorda com o sujeito paciente: no singular quando o sujeito é singular (carro) e no plural quando o sujeito é plural (carros).
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Referências bibliográficas
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
- CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. 48. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008.
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 6. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2013.
- GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em Prosa Moderna. 27. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.
- ROCHA LIMA, Carlos Henrique da. Gramática Normativa da Língua Portuguesa. 49. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011.
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