O que é Análise do Discurso Midiático? Fundamentos e Objetos de Estudo
Em sociedades contemporâneas hipermediatizadas, a informação não circula em estado bruto nem opera como um reflexo transparente dos fatos. Todo acontecimento que ingressa no espaço público passa por complexos processos de mediação simbólica, seleção lexical, enquadramento retórico e coerções institucionais. Os meios de comunicação — da imprensa tradicional às plataformas digitais algorítmicas — não apenas transmitem dados sobre o mundo, mas produzem ativamente versões legitimadas da realidade social.
A Análise do Discurso Midiático (ADM) constitui o campo teórico e metodológico dedicado a desvendar esses mecanismos de produção de sentidos. Em vez de tratar a linguagem como mero instrumento funcional de transmissão de mensagens, a ADM compreende o discurso como uma prática social historicamente situada, atravessada por disputas ideológicas, relações assimétricas de poder e contratos implícitos de comunicação.
Investigar o discurso da mídia exige articular subsídios da Linguística, da Filosofia da Linguagem, da Sociologia da Comunicação e da Teoria Social. Sob esse prisma, o analista busca compreender como os textos noticiosos, editoriais, audiovisuais e hipermidiáticos constroem efeitos de verdade, naturalizam perspectivas de classes dominantes, instituem consensos e operam silenciamentos deliberados.
Neste artigo acadêmico, você explorará a fundamentação epistemológica da ADM, as principais matrizes teóricas que sustentam seus métodos (com destaque para a escola francesa pecheutiana, a semiolinguística de Patrick Charaudeau e a abordagem dialógica), os regimes de visada comunicativa da mídia, a diferença crucial em relação à clássica Análise de Conteúdo e os procedimentos metodológicos para a realização de análises críticas em suportes midiáticos.
O estatuto epistemológico da Análise do Discurso Midiático
A Análise do Discurso rompe categoricamente com o modelo linear da Teoria Matemática da Informação (SHANNON; WEAVER, 1949), que postulava um esquema simplificado de emissor → canal/código → receptor. Para as teorias discursivas, a linguagem é opaca, polissêmica e inseparável das condições materiais em que é enunciada.
Quando aplicada à mídia, essa premissa significa que os produtos midiáticos (manchetes, telejornais, reportagens investigativas, postagens em redes sociais) não contêm sentidos intrínsecos e unívocos. O sentido resulta de um processo de interação entre o dito, o não dito, as formações ideológicas dos interlocutores e a memória discursiva acumulada na história (ORLANDI, 2012).
A ruptura epistemológica do discurso midiático
“O discurso midiático deve ser compreendido como um espaço de construção de sentidos, onde se disputam posições de saber e de poder” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 62). A mídia não é uma janela neutra para a realidade, mas um dispositivo institucional de enunciação que fabrica regimes de visibilidade e de inteligibilidade social.
Para apreender a especificidade do discurso da mídia, o pesquisador precisa reconhecer a tripla dimensão que define os órgãos de comunicação social:
- Dispositivo técnico-semiótico: suportes materiais (impresso, ondas radiofônicas, telas digitais, códigos algorítmicos) que impõem restrições de espaço, tempo, diagramação e multimodalidade;
- Organização econômico-institucional: empresas e conglomerados submetidos a regimes de concorrência, venda de audiência a anunciantes e pressões financeiras de capitalização;
- Instância de mediação simbólica: espaço de representação política e cultural onde vozes sociais são legitimadas ou desqualificadas.
Matrizes teóricas fundamentais da Análise do Discurso
A Análise do Discurso Midiático não constitui um modelo teórico homogêneo ou monolítico. Ela se ancora em tradições teóricas que oferecem categorias analíticas complementares para o exame dos textos e suas condições de circulação.
1. Análise do Discurso Materialista (Linha Francesa)
Fundada na França no final dos anos 1960 por Michel Pêcheux, a partir do diálogo com o materialismo histórico de Louis Althusser e a psicanálise lacaniana, a Análise do Discurso de linha francesa afirma que o sentido das palavras é determinado pelas posições ideológicas em jogo. Os conceitos centrais dessa corrente aplicados à mídia incluem:
- Condições de Produção: englobam tanto o contexto estrito e imediato da enunciação (veículo, data, gênero textual) quanto o contexto amplo e sócio-histórico em que as forças políticas e ideológicas atuam;
- Formação Discursiva (FD): sistema de regras que, em uma dada época e formação social, determina aquilo que pode e deve ser dito a partir de uma dada posição (FOUCAULT, 2008; PÊCHEUX, 1990). Veículos conservadores e progressistas, por exemplo, inscrevem-se em formações discursivas distintas ao nomearem o mesmo protesto de "vandalismo" ou "manifestação popular legítima";
- Interdiscurso e Memória Discursiva: conjunto de dizeres já ditos ao longo da história que sustentam e condicionam a enunciação presente. Todo texto midiático dialoga tacitamente com um arquivo histórico prévio;
- Esquecimento nº 1 e nº 2: Pêcheux (1990) teoriza que o sujeito do discurso sofre duas ilusões constitutivas: a de ser a origem absoluta do que diz (esquecimento nº 1) e a de que aquilo que diz tem sentido unívoco e transparente (esquecimento nº 2). A mídia frequentemente sustenta a ilusão de que suas reportagens são factuais e autônomas, omitindo as determinações históricas de suas pautas.
A ilusão da transparência na imprensa
“Não se trata de saber o que o autor quis dizer, mas sim o que foi possível dizer naquele momento, dentro de um conjunto de formações discursivas” (PÊCHEUX, 1990, p. 81). No jornalismo, a análise investiga por que certos enunciados emergem como óbvios enquanto outros se tornam impensáveis dentro da ordem discursiva vigente.
2. Teoria Semiolinguística e o Contrato de Comunicação (Patrick Charaudeau)
O linguista francês Patrick Charaudeau desenvolveu um dos aparatos conceituais mais produtivos para a análise empírica dos meios de comunicação de massa. Em sua obra Discurso das Mídias (2006), Charaudeau propõe que a produção midiática é regida por um contrato de comunicação, no qual os parceiros da troca discursiva compartilham saberes, papéis e expectativas prévias.
A mídia se encontra permanentemente tensionada entre duas visadas pragmáticas conflitantes:
Visada de Informação (Fazer Saber)
Fundamenta-se na busca por legitimidade e credibilidade pública. Requer rigor apuratório, citação de fontes qualificadas, verificação de dados e construção de um efeito de verdade e objetividade.
Exigência: Transparência, precisão descritiva e seriedade institucional.
Visada de Captação (Fazer Sentir)
Fundamenta-se na necessidade mercantil de atrair e reter a atenção do público leitor ou espectador. Opera por meio de recursos de dramatização, suspense, apelo emocional e espetacularização.
Exigência: Seduzir, emocionar, gerar engajamento e manter o índice de audiência.
Para Charaudeau (2006), o discurso midiático moderno resulta do equilíbrio instável entre essas duas instâncias: informar sem perder a audiência e emocionar sem aniquilar a autoridade jornalística.
O dilema estrutural do jornalismo moderno
“A mídia precisa criar um equilíbrio entre informação, sedução e espetáculo, para sustentar sua autoridade discursiva” (CHARAUDEAU, 2006, p. 19).
3. Heterogeneidade e Polifonia (Mikhail Bakhtin e Jacqueline Authier-Revuz)
A partir da perspectiva dialógica da linguagem inaugurada pelo Círculo de Bakhtin (2011), todo enunciado é habitado por outros enunciados. Na mídia, a heterogeneidade da enunciação manifesta-se de duas maneiras principais (AUTHIER-REVUZ, 1990):
- Heterogeneidade Mostrada: marcas explícitas da presença da voz do outro no texto, materializadas pelo discurso direto entre aspas, discurso indireto atribuído a fontes oficiais, itálicos, glosas e remissões a relatórios técnicos;
- Heterogeneidade Constitutiva: o tecido intertextual e invisível da linguagem, no qual o discurso reproduz crenças sociais, jargões institucionais e ideologias compartilhadas sem assinalar a autoria original de cada fragmento.
4. Análise Crítica do Discurso (Norman Fairclough)
A Análise Crítica do Discurso (ACD), sistematizada por Norman Fairclough (2001), propõe um modelo tridimensional que conecta diretamente o texto às estruturas sociopolíticas de dominação:
Modelo Tridimensional de Fairclough (2001)
- Texto: análise linguística formal (vocabulário, metáforas, transitividade verbal, voz passiva, nominalizações);
- Prática Discursiva: processos de produção, distribuição e consumo textual (gêneros jornalísticos, rotinas de redação, intertextualidade);
- Prática Social: efeitos ideológicos e hegemônicos na reprodução ou transformação das relações assimétricas de poder na sociedade.
Quadro comparativo das principais correntes teóricas da ADM
Para compreender como cada perspectiva metodológica investiga os meios de comunicação, a tabela a seguir sistematiza as principais matrizes teóricas:
| Corrente Teórica | Teóricos de Referência | Foco Epistemológico | Conceitos Centrais |
|---|---|---|---|
| Análise do Discurso Materialista (Linha Francesa) | Michel Pêcheux, Eni Orlandi, Michel Foucault | Articulação entre linguagem, ideologia e inconsciente histórico. | Condições de produção, formações discursivas, interdiscurso, esquecimentos, silenciamento. |
| Semiolinguística do Discurso | Patrick Charaudeau | Contrato comunicativo e estratégias de enunciação da mídia. | Contrato de comunicação, visada de informação, visada de captação, dramatização discursiva. |
| Abordagem Dialógica e Enunciativa | Mikhail Bakhtin, Jacqueline Authier-Revuz | Polifonia textual e circulação de vozes sociais no enunciado. | Dialogismo, heterogeneidade mostrada e constitutiva, intertextualidade, responsividade. |
| Análise Crítica do Discurso (ACD) | Norman Fairclough, Teun van Dijk | O papel do discurso na reprodução de desigualdades e hegemonias. | Modelo tridimensional, poder, ideologia, hegemonia, racismo institucional no discurso. |
Características centrais do discurso midiático
O discurso construído pelos meios de comunicação apresenta traços formais e discursivos que o distinguem de outras esferas de atividade humana (como a científica, a jurídica ou a literária):
Construção do efeito de objetividade
Uma das marcas mais expressivas do jornalismo hegemônico é a produção de um efeito de neutralidade. O texto jornalístico recorre ao apagamento de pronomes de primeira pessoa, ao uso reiterado da terceira pessoa, à passivação verbal ("foram registradas perdas") e à abundância de índices estatísticos. Esses expedientes linguísticos criam a ilusão de que o fato fala por si próprio, ocultando as decisões editoriais tomadas durante a apuração.
Regime de urgência e aceleração temporal
Na cultura digital e nas redes de informação 24 horas, o acontecimento é noticiado de maneira instantânea. Essa premência temporal condiciona a profundidade analítica, favorece o recurso a fórmulas pré-fabricadas e intensifica a circulação de versões preliminares ou descontextualizadas dos fatos.
Seleção de vozes e hierarquização de legitimidades
Embora a mídia seja heterogênea e abrigue multiplicidade de fontes, essas vozes não ocupam o mesmo patamar discursivo. Fontes oficiais (porta-vozes estatais, economistas do setor financeiro, juízes e ministros) são apresentadas sob o estatuto de autoridade e neutralidade, enquanto lideranças sindicais, trabalhadores e movimentos sociais figuram comumente na posição de contestadores, suspeitos ou meros personagens folclorizados.
Espetacularização e dramatização
Para cumprir o imperativo de captação de público, os acontecimentos são estruturados segundo narrativas dramáticas (conflito de personagens, oposição maniqueísta entre "bem" e "mal", vítimas e heróis). Acontecimentos políticos complexos e discussões econômicas estruturais são frequentemente reduzidos a intrigas personalistas e disputas individuais.
O que a Análise do Discurso Midiático investiga?
O objeto da ADM não se limita à mensagem explícita transmitida por um texto, mas alcança o funcionamento do dispositivo enunciativo em sua totalidade:
- Relações de poder e legitimação: quais posições de classe, gênero, raça e institucionalidade são fortalecidas ou desautorizadas pelo texto;
- Condições materiais de produção e circulação: as regras da empresa jornalística, a arquitetura das plataformas digitais e as pressões dos anunciantes que determinam a forma final do conteúdo;
- A produção de efeitos de sentido: as nuances semânticas estabelecidas por escolhas lexicais deliberadas (por exemplo, nomear uma ação de "ajuste fiscal" em vez de "corte de verbas públicas para a saúde");
- Modos de subjetivação: como os textos midiáticos constroem e interpelam o leitor ideal (ora como cidadão de direitos, ora como mero consumidor ávido por mercadorias);
- O silenciamento discursivo: os recortes e apagamentos que deixam determinadas realidades fora do horizonte de visibilidade da opinião pública.
A política do silenciamento
Na perspectiva de Eni Orlandi (2012), o silêncio não é a ausência de sentido, mas uma forma significativa de discurso. O silenciamento político ocorre quando a mídia exclui deliberadamente certas questões ou sujeitos do debate público, interditando a circulação de saberes que poderiam questionar o status quo.
Diferença crucial: Análise do Discurso vs. Análise de Conteúdo
É comum entre pesquisadores iniciantes confundir a Análise do Discurso com a Análise de Conteúdo (AC), associada aos trabalhos de Laurence Bardin (1977). Ambas investigam textos, mas partem de epistemologias diametralmente opostas:
Análise do Discurso (ADM)
Parte do pressuposto da opacidade da linguagem e da não transparência dos sentidos. O sentido não é pré-existente: ele é construído historicamente nas relações discursivas.
Pergunta central: como este enunciado foi possível? Quais formações ideológicas produzem esse efeito de sentido?
Análise de Conteúdo (AC)
Parte da premissa da transparência da mensagem e busca quantificar categorias temáticas visíveis por meio de contagem de termos e unidades de frequência.
Pergunta central: o que a mensagem diz explicitamente? Quantas vezes certos temas foram repetidos?
Roteiro metodológico: como analisar um texto midiático
A execução de uma pesquisa acadêmica em Análise do Discurso Midiático requer um percurso sistemático que ultrapassa a impressão subjetiva do leitor. O esquema a seguir orienta as etapas de uma investigação discursiva consistente:
Etapas do roteiro analítico em ADM
- Constituição do corpus: delimitação temporal e seleção de textos, postagens, vídeos ou manchetes representativos do fenômeno investigado;
- Mapeamento das condições de produção: identificação do veículo, dos interesses institucionais, do momento sócio-histórico e do perfil do público-alvo;
- Análise da materialidade linguística e semiótica: exame de manchetes, verbos introdutores de opinião, modalizadores de certeza/dúvida, imagens, diagramação e adjetivos;
- Rastreamento do interdiscurso: identificação dos ecos de outras falas e discursos sociais historicamente consolidados no texto analisado;
- Identificação das Formações Discursivas: reconhecimento das redes de sentido que orientam o posicionamento do veículo de imprensa;
- Desvelamento dos efeitos ideológicos e dos silenciamentos: explicitação dos sentidos produzidos, das vozes autorizadas e daquelas que foram apagadas do relato.
Exemplo de análise acadêmica: o léxico na cobertura de manifestações
Situação em análise
Dois portais de notícias cobrem a mesma paralisação de operários metalúrgicos ocorrida em um polo industrial:
Veículo 1: "Greve de metalúrgicos paralisa trânsito na capital e causa prejuízos milionários ao comércio local."
Veículo 2: "Em mobilização histórica por reposição salarial, metalúrgicos realizam passeata contra perdas inflacionárias."
Análise discursiva dos efeitos de sentido
No Veículo 1, a seleção lexical "paralisa trânsito" e "causa prejuízos" associa a ação operária à desordem pública e ao dano econômico coletivo. A greve deixa de ser um direito constitucional trabalhista e passa a figurar no campo semântico do transtorno urbano. Os trabalhadores são responsabilizados indiretamente pelos problemas de mobilidade de terceiros.
No Veículo 2, o enunciado emprega o vocábulo "mobilização histórica" e especifica a reivindicação ("reposição salarial", "perdas inflacionárias"). O discurso inscreve-se na formação discursiva dos direitos trabalhistas e da luta de classes, legitimando a reivindicação diante da opinião pública.
Relação com o poder social
Nenhum dos dois enunciados é neutro. Cada portal seleciona recursos sintáticos e lexicais orientados por sua linha editorial, seus interesses econômicos e seu contrato de comunicação, confirmando a tese de que a notícia é sempre uma reconstrução simbólica e ideológica da realidade.
Questões para estudo e reflexão
Questão 1
Por que a Análise do Discurso afirma que a notícia não é um reflexo neutro e objetivo da realidade dos fatos?
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Resposta comentada: A linguagem é opaca e historicamente determinada. A produção jornalística envolve escolhas constitutivas de pauta, recorte lexical, enquadramento sintático, hierarquização de informações e seleção de fontes. Cada uma dessas decisões expressa posicionamentos ideológicos e institucionais, resultando na construção orientada de uma representação simbólica da realidade, e não na reprodução pura dos acontecimentos.
Questão 2
De acordo com Patrick Charaudeau, quais são as duas visadas comunicativas que entram em permanente tensão no discurso midiático?
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Resposta comentada: Trata-se da tensão entre a visada de informação (fazer saber, fundamentada na busca de credibilidade, veracidade e legitimidade pública) e a visada de captação (fazer sentir, orientada pela lógica mercantil de sedução, espetacularização e retenção da audiência).
Questão 3
Como o conceito de Formação Discursiva (FD), formulado por Michel Foucault e reelaborado por Michel Pêcheux, aplica-se à análise de jornais com linhas editoriais distintas?
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Resposta comentada: A Formação Discursiva determina o que pode e deve ser dito a partir de uma dada posição social e ideológica. Veículos com orientações políticas ou econômicas diferentes inscrevem-se em FDs distintas; consequentemente, constroem sentidos antagônicos para os mesmos acontecimentos ao recorrerem a redes semânticas e pressupostos ideológicos particulares.
Questão 4
Qual é a diferença epistemológica fundamental entre a Análise do Discurso e a Análise de Conteúdo clássica de Laurence Bardin?
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Resposta comentada: A Análise de Conteúdo baseia-se na transparência da mensagem e na quantificação de dados manifestos (o que foi dito explicitamente e com que frequência). A Análise do Discurso recusa a transparência da linguagem, investigando as condições materiais de produção, as relações de poder, os efeitos de sentido e o papel do não dito e dos silenciamentos.
Questão 5
Como a polifonia bakhtiniana e a heterogeneidade mostrada se manifestam empiricamente no gênero reportagem jornalística?
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Resposta comentada: Manifestam-se por meio do entrecruzamento explícito de vozes sociais no texto: uso de aspas (discurso direto), citações indiretas de autoridades, remissões a pesquisas e falas de testemunhas. A ADM investiga a hierarquia dessas vozes, analisando quais atores sociais são legitimados como especialistas detentores do saber e quais aparecem apenas como objetos subordinados do relato.
Resumo da Análise do Discurso Midiático
- A ADM investiga a linguagem da mídia enquanto prática social, ideológica e historicamente situada;
- Rompe com modelos lineares de transmissão para analisar a opacidade e a polissemia dos sentidos;
- A Análise do Discurso de linha francesa (Pêcheux, Orlandi) evidencia o papel das formações discursivas, do interdiscurso e do silenciamento;
- Patrick Charaudeau conceitua o contrato de comunicação da mídia sob a tensão entre a visada de informação (fazer saber) e a de captação (fazer sentir);
- A heterogeneidade de Bakhtin e Authier-Revuz permite mapear como vozes sociais são hierarquizadas e legitimadas nas matérias;
- A Análise Crítica do Discurso de Fairclough articula texto, prática discursiva e prática social para demonstrar a reprodução da hegemonia;
- A ADM difere da Análise de Conteúdo por investigar os efeitos de sentido, os não ditos e a historicidade, e não meras frequências quantitativas;
- A aplicação prática exige constituir um corpus, mapear condições de produção e explicitar como escolhas formais produzem efeitos ideológicos de verdade.
Perguntas frequentes sobre a Análise do Discurso Midiático
O que significa analisar o discurso da mídia?
Significa investigar como textos, imagens e sons veiculados pelos meios de comunicação constroem sentidos sobre a realidade social, revelando as relações de poder, as ideologias e os interesses institucionais que orientam as formas de dizer.
A Análise do Discurso Midiático serve para apontar se a notícia é mentirosa?
Não. O objetivo primordial da ADM não é realizar checagem factual policialesca nem avaliar o texto com juízos de valor simples (verdade versus mentira). Ela visa demonstrar como qualquer notícia, mesmo factual, resulta de escolhas linguísticas e ideológicas que privilegiam determinados sentidos em detrimento de outros.
O que são condições de produção do discurso?
São as circunstâncias históricas, políticas, sociais e institucionais que tornam um enunciado possível. Incluem tanto o contexto estrito (veículo, data, gênero do texto) quanto o contexto amplo (regime político, correlação de forças de classes e conjuntura econômica).
Qual é o papel do silêncio na análise discursiva?
Na esteira dos estudos de Eni Orlandi, o silêncio não é ausência de linguagem, mas matéria significante. Analisar o silenciamento permite verificar quais temas, grupos sociais e explicações alternativas foram excluídos da pauta jornalística para preservar consensos hegemônicos.
Como a ADM pode ser aplicada às redes sociais e ao ambiente digital?
No ecossistema digital, a ADM analisa não apenas a linguagem verbal, mas a multimodalidade de memes, vídeos curtos e a mediação algorítmica. Os algoritmos funcionam como dispositivos enunciativos que determinam regras de visibilidade, circulação e engajamento das publicações.
O que é o contrato de comunicação formulado por Patrick Charaudeau?
É o conjunto de regras e expectativas mútuas que ligam os produtores de mídia aos seus consumidores. Ele estabelece que a mídia deve fornecer informações confiáveis sobre o mundo enquanto atrai a atenção do público por meio de estratégias retóricas de dramatização e entretenimento.
Quais são os principais teóricos estudados na Análise do Discurso Midiático?
Destacam-se Michel Pêcheux, Michel Foucault, Eni Orlandi (AD de linha francesa), Patrick Charaudeau, Dominique Maingueneau (semiolinguística e análise enunciativa), Mikhail Bakhtin (dialogismo e polifonia) e Norman Fairclough e Teun van Dijk (Análise Crítica do Discurso).
A ADM pode ser utilizada como metodologia em pesquisas acadêmicas e TCCs?
Sim. A ADM é amplamente utilizada em monografias, dissertações e teses nas áreas de Letras, Comunicação Social, Jornalismo, Ciência Política e Educação, oferecendo instrumentos rigorosos para a análise de coberturas jornalísticas, discursos políticos e manifestações culturais na mídia.
Considerações finais
A Análise do Discurso Midiático constitui um instrumental teórico indispensável para a desnaturalização dos fluxos de informação na modernidade tardia. Ao desmistificar a pretensa neutralidade da imprensa e das plataformas tecnológicas, o campo capacita o leitor, o pesquisador e o estudante a reconhecerem a complexa teia de interesses materiais e simbólicos que molda a esfera pública.
Compreender os fundamentos da ADM e dominar suas categorias conceituais — da formação discursiva pecheutiana ao contrato comunicativo de Charaudeau — permite formular diagnósticos críticos sobre como os consensos sociais são forjados, como as dissidências são contidas e de que maneira a linguagem opera como o principal terreno de disputa hegemônica na sociedade.
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Referências
- AUTHIER-REVUZ, Jacqueline. Heterogeneidade(s) enunciativa(s). Cadernos de Estudos Lingüísticos, Campinas, n. 19, p. 25-42, 1990.
- BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 6. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
- BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.
- CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. Tradução de Angela M. S. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2006.
- CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de Análise do Discurso. Coordenação da tradução por Fabiana Komesu. São Paulo: Contexto, 2004.
- FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Tradução de Izabel Magalhães. Brasília: Editora UnB, 2001.
- FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
- ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. 11. ed. Campinas: Pontes Editores, 2012.
- ORLANDI, Eni Puccinelli. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. 6. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.
- PÊCHEUX, Michel. O discurso: estrutura ou acontecimento. Tradução de Eni P. Orlandi. Campinas: Pontes Editores, 1990.
- SHANNON, Claude E.; WEAVER, Warren. The mathematical theory of communication. Urbana: The University of Illinois Press, 1949.